Por Patricia Jacob

Todos nós possuímos um auto-conceito, aquilo que pensamos e acreditamos sobre nós mesmos, e ao mesmo tempo nos empenhamos em apresentar para o mundo externo uma imagem, muitas vezes diferente dessa auto-imagem, que chamamos de nosso “eu público”.

Enquanto o auto-conceito envolve como você vê a si mesmo, o “eu público” envolve como você deseja que os outros lhe vejam. Nem sempre nos comportamos de uma maneira totalmente espontânea. Algumas vezes “editamos” nosso comportamento para apresentar uma certa imagem. Pode parecer algo falso e enganador, mas é comum e normal e a maioria de nós faz isto. Normalmente temos um número de “eu públicos” que estão ligados a certas situações e a determinados grupos de pessoas com as quais nos interagimos.

Por que nos comportamos desta forma?

Basicamente, por necessidade. Parece que é muito importante pra nós sermos aceitos por outras pessoas que consideramos significativas, além do que as normas sociais acabam exigindo que nos apresentemos cuidadosamente em determinadas situações. Quer concordemos ou não, existe uma expectativa de comportamento pela sociedade, nossos pais, amigos, colegas de trabalho, etc.

Esta imagem “gerenciada” é necessária quando desejamos que as pessoas nos respeitem, gostem de nós, que nos contratem, comprem nossos produtos e assim por diante. Os esforços dessa imagem de certa forma controlada, dirigem o estilo de nossa comunicação e nossa aparência em certos momentos de nossa vida. E este é um fator comum nas relações sociais. Porém, apesar de o usarmos com frequência, certamente não o fazemos por todo o tempo. Felizmente temos momentos de pura intimidade, de espontaneidade conosco e com pessoas íntimas; muitos de nós não somos limitados a um eu público. Temos um certo conhecimento de quem somos e tentamos ampliar nosso auto-conhecimento, o entendimento de quem realmente somos em nossa intimidade. Na verdade, somos a mistura de todos esses “eus” que mostramos.

No entanto algumas pessoas (quase sempre muito inseguras quanto à auto-imagem e com uma baixa auto-estima) têm vários eus públicos discrepantes e opostos entre si, e acabam por exagerar na quantidade de empenho na transmissão de uma dessas imagens. Ou seja, se você se apresenta de uma certa forma, você pode passar a se ver realmente desta forma, a acreditar em sua fabricação. E quando isto acontece, as pessoas correm o risco de obscurecer a distinção entre seu eu real e os vários eus públicos, e podem ficar confusos sobre o que e quem realmente são.

E aí é que mora o perigo: que esse movimento, que é natural em todo ser humano, se torne algo cristalizado na personalidade da pessoa a ponto de ela não mais se reconhecer em si própria. Chamamos isso de perda de identidade, que é uma dificuldade emocional geradora de muita angústia e um dos grandes problemas atuais nessa nossa sociedade cada vez mais competitiva e racional. Olhando pra tudo isso, parece ser uma boa idéia evitar exagerar nos esforços quanto à sua auto-apresentação, para que isso não se torne ameaçador ao seu senso de identidade.

E como podemos buscar isso?
Procurando estar sempre em contato consigo mesmo, com seu “eu” real, podendo identificar os próprios sentimentos em relação a si próprio (auto-estima) e o tamanho da dependência do olhar dos outros, do que os outros pensam de você.

É importante que gastemos algum tempo na busca desse auto-conhecimento, o que podemos sem dúvida nenhuma realizar sozinhos ou com a ajuda de amigos próximos, filosofias de vida ou religiões. No entanto, esse processo de busca, de conhecimento interno pode ser muito mais rico e profundo através da ajuda de uma psicoterapia, onde podemos ter um espaço (às vezes o único no nosso dia-a-dia) para olharmos para nós mesmos, sem máscaras e sem julgamentos.

Fica aqui a mensagem de hoje: nunca esqueçamos de procurar mais tempo de espontaneidade e intimidade entre familiares e amigos, entre pessoas que possam nos aceitar sem “maquiagem”. Afinal, maquiagem demais nos torna artificiais, e com o tempo enfeia e envelhece!

Uma boa busca a todos!

*Patricia Jacob é psicóloga clínica formada pela USP-SP.