Por Patricia Jacob*
Aula de computação, inglês, basquetebol, tênis, kumon, violão, academia, ballet, reforço… Uma das coisas que têm me preocupado muito em relação às crianças e adolescentes de hoje é a sobrecarga de atividades extracurriculares que eles estão tendo durante o seu dia. As crianças não estão tendo mais tempo livre, pra brincar, relaxar, e as vejo tão novinhas e já estressadas, com um prejuízo enorme para seu desenvolvimento. Será que é o caso de seu filho? Então está na hora de repensar as vantagens de sobrecarregá-lo de atividades.

Será que a criança que tem sua carga horária toda preenchida consegue produzir no seu potencial máximo em todas as atividades? Garanto-lhes que não! Pra dar conta de tudo o que está sendo exigido delas atualmente, a criançada acaba tendo que ligar o “piloto automático”, e com isso certamente não vai render o que poderia, inclusive na escola.

No mundo competitivo em que vivemos, é compreensível que os paisqueiram que os filhos aproveitem toda oportunidade possível para enriquecer suas vidinhas. Mas com isso, se esquecem que eles são apenas crianças, ou apenas adolescentes, e não precisam ainda viver a vida agitada que inevitavelmente nos espera na vida adulta. Ao invés de jovens mais preparados para a vida, acabamos vendo jovens ansiosos, estressados, extremamente exigentes consigo mesmos, altamente competitivos e infelizes.

Temos que lembrar que pra “se dar bem na vida” não basta ter um currículo extenso e invejável: precisamos de qualidade de vida, de equilíbrio emocional, de saúde física e mental. E o que oferece essas características a nossos filhos é a oportunidade de ter seus limites respeitados, é poder ter tempo pra brincar (que é de extrema importância na infância), tempo pra ficar com os amigos e a família e aprender a se relacionar, tempo ocioso (sem NADA pra fazer mesmo!) para que aprendam a estar consigo mesmos sem precisar obsessivamente estar preenchendo seu tempo livre.

Nem sempre é fácil saber com clareza se a vida agitada de seu filho é prejudicial ou não. Algumas crianças gostam de fazer várias coisas e não se estressam tanto, mas esse limite entre o que é demais ou não, é muito pessoal e deve ser respeitado pelos pais. Para começar essa avaliação, faça a si mesmo as seguintes perguntas:

*Seu filho algumas vezes tem dificuldade em se lembrar o que tem a fazer naquele dia?
*Na hora de sair, ele “enrola”, esquece coisas ou vai reclamando?
*Seu filho tem que ficar acordado até tarde fazendo sua tarefa da escola com muita frequência?
*Ele às vezes reclama que nunca tem tempo de fazer as coisas que ele quer ou gosta?
*Ele tem dificuldade em cair no sono ou tem o sono muito agitado?
*Tem sintomas físicos ou emocionais de stress (choro fácil, irritabilidade, dor de cabeça, de estômago, diarréia, etc.)

Se você respondeu “sim” à maioria das questões acima, então é muito provável que seu filho está sobrecarregado. Outra coisa a se pensar é que o horário de seu filho deve ser equilibrado entre:

1- tempo gasto com tarefas escolares e/ou atividades de enriquecimento acadêmico (reforço, inglês, aulas particulares, etc.)
2- tempo gasto socializando e participando de atividades estruturadas (p. ex. práticas esportivas, aulas de instrumentos musicais, canto, desenho, dança…)
3- tempo livre que ele possa usar como quiser (brincar, ler, escutar música, visitar amigos, ou simplesmente não fazer NADA!).

Agora pense: o tempo de seu filho tem espaço para esses três ítens ou está pesando muito para um lado somente? Os três são igualmente importantes para as crianças e o ideal é que se consiga ter um equilíbrio entre eles.

Lembre-se que a criança cresce mais feliz quando tem um vínculo forte e gratificante com os pais e quando sabem que são amadas simplesmente por quem são e não pelo que fazem, pelos troféus que ganha ou pelas notas que tira.

Patricia Jacob é psicóloga clínica formada pela USP-SP.