Por Patricia Jacob*
Todos nós já sabemos o quanto os limites e o “não” são importantes para a formação de nossos filhos, para que eles aprendam a lidar com as frustrações da vida, não é? Agora gostaria de falar daqueles “nãos” que na verdade poderíamos evitar: o “não do comodismo” e o “não do medo”. Vejo isso acontecendo o tempo todo no trabalho com os pais no consultório.

Mas o que é o “não” do comodismo? Este “não” é aquele que sai de nossas bocas automaticamente quando o pedido das crianças nos demanda tempo ou energia. Quantos de nós não vivemos um dia-a-dia agitado, corrido, estressante e passamos o dia todo esperando a noite, quando poderemos chegar em casa e finalmente descansar? Aí vem seu filhinho e quer sua atenção ou pede ajuda nas tarefas, ou pra que conte uma história pra ele… Ou então você está lá concentradíssimo numa tarefa e lá vem ele te interromper, te pedindo ajuda pra colocar uma fita no vídeo ou querendo perguntar alguma coisa importante pra ele.

A maioria dos pedidos das crianças requer que você pare o que está fazendo, levante e os dê a atenção necessária. Isso às vezes cansa e sei que lá no fundinho, em muitos momentos, o desejo é de dizer “Não! Nem agora, nem nunca! Se vira! Você não consegue ver que estou ocupado? Não percebe que trabalhei o dia todo e estou cansado???”. As crianças merecem um “sim” sempre que possível. Sei que atender aos pedidos deles não é fácil, mas devemos pensar que nessa vida caótica que levamos, muitas vezes acabamos deixando algumas partes de nossa vida de lado.

Damos prioridade pro chuchu que tá no fogo ou pra tese de mestrado, pro chefe, pro dinheiro que achamos que temos que ganhar cada vez mais… E deixamos de lado o que deveria ser a prioridade real de nossas vidas: os filhos e a família, que às vezes são as únicas coisas realmente merecedoras de nosso maior esforço e tempo. Infelizmente no consultório encontro muitas pessoas que descobrem isso tarde demais, quando já perderam o que tinham de mais valioso na vida…

Agora vamos entender um pouco o que é o “não do medo”, outro tipo de “não” que deveríamos aprender a evitar (mas não esqueçam: isso não significa de forma alguma nunca podermos dizer não aos filhos!). É claro que todo pai e mãe trazem dentro de si o instinto de proteção para com suas “crias”. Quem não gostaria de poder proteger seus filhos contra todo o mal existente e contra todas as possibilidades de que se machuquem um dia, tanto fisicamente quanto emocionalmente?

Nossos bebezinhos nascem completamente desprotegidos e necessitam desse instinto de proteção dos pais para que sobrevivam nessa “selva”. No entanto, há aqui um perigo de que isso se transforme numa superproteção, que já não traz benefícios para os filhos. Pelo contrário… Nós imediatamente dizemos “não” quando nossos filhos nos pedem para fazer algo que não é absolutamente seguro. Mas antes de negar, devemos pesar os riscos envolvidos cuidadosamente. Se o risco não é tão grande e as possíveis consequências são razoáveis (um arranhão, um cortezinho ou um roxo na perna são normais na infância e saram rapidinho), devemos dizer “Sim, pode ir e tentar!”. Assim as crianças poderão, além de se divertir, desenvolver agilidades importantes, explorar suas capacidades e tornarem-se pessoas seguras de si.

Pais superprotetores tendem a focalizar sua atenção somente nos riscos. Com isso, podem cair no perigo de criar filhos despreparados para a vida, imaturos ou mimados. Ou então adolescentes que passam a fazer tudo às escondidas. Somente aumentando ao longo do tempo as responsabilidades dos filhos e permitindo que eles experienciem as consequências de seus próprios atos, é que eles se tornarão adultos responsáveis e seguros. Alguns pais me perguntam: “Mas se eu já passei por isso e sei que não vai dar certo, porque ele não segue meus conselhos?”. Infelizmente, em muitas situações, eles só aprendem pelos seus próprios erros e temos que respeitar e “aguentar” isso, por mais sofrido que seja.

Não é fácil deixar de proteger nossos filhos, mas não poderemos fazer isso para sempre…!

*Patricia Jacob é psicóloga clínica formada pela USP-SP.