(observação= artigo escrito em , 8 Novembro, 2009,Domingo)

Por Patricia Jacob*

Bom, sei que sou uma das poucas “do contra” que não gostou da notícia do Rio 2016. De verdade isso me deixa azeda por vários motivos que não interessam muito aqui: a indignação em pensar porque agora -pra fazer bonito pra estrangeiro- surge verba pra resolver situações graves que já existem a tanto tempo no Rio; imaginar o tanto de corrupção que irá rolar nessa história; imaginar o quanto vai se gastar em construções que vão virar elefantes brancos depois do evento… Mas meu grande medo é outro. Têm se falado muito no quanto agora o esporte vai começar a ser valorizado e incentivado em nosso país. Isso é mesmo legal. Mas tenho medo é exatamente desse ‘incentivo’ virar loucura e passarem a “maltratarem”  nossas crianças como já fazem lá fora. Na verdade o que vai ser incentivado não é só a prática de esportes, mas também essa competitividade desenfreada que violenta os seres humanos.

Sabemos o quanto o esporte é positivo para o desenvolvimento infantil: além de todos os benefícios físicos, ensina-os sobre cooperação, sobre como lidar com frustração e com os próprios limites, estimula sociabilidade, etc. Também sabemos o quanto o exercício físico é importante pra manutenção da saúde física e mental de todos nós. É muito gostoso assistir às Olimpíadas e torcer por nosso país e nossos ídolos dos esportes. E tem mais um monte de coisa boa: promoção da saúde, belíssimos espetáculos, o patriotismo sendo estimulado…

Mas por trás do tal “espírito olímpico” fica sempre velado todo o lado negativo que nossa cultura competitiva adicionou aos poucos aos esportes (e nem sequer ousamos pensar na gravidade disso!): crianças perdendo a infância e adolescência na tentativa de se tornarem medalhistas e a violência pela qual os atletas passam durante os treinos com a meta de chegarem às Olimpíadas. Aqui não tem nada de saúde! O que move os atletas olímpicos já não é mais o prazer da atividade em si, mas a competitividade e superação de seu desempenho. Muitos atletas convivem com dores constantes, de tanto seus corpos serem levados ao limite.

Exemplos dessa violência são as ginastas, que têm seus corpos modificados pelo treinamento (ficam ‘atarracadas’), além de apresentarem um alto índice de anorexia (por conta da dieta alimentar de baixa caloria necessária para os treinamentos) que chega inclusive a atrasar em muitos anos a primeira menstruação. Outro exemplo clássico é o da maratonista suíça Gabrielle Andersen que, nas Olimpíadas de 1984, chegou ao seu limite de stress e sofrimento. O cansaço transformou seu corpo numa massa distorcida pela dor, sem coordenação, feio de se ver, mostrando claramente estar além de seus limites. Mas a cabeça lhe comandava não desistir! O estádio todo parou, perplexo e comovido, e todos louvaram o espírito de luta e a capacidade de superação daquela mulher, sem nem se darem conta do horror e da brutalidade daquela situação!

É muita ênfase na competitividade, numa época em que estamos precisando essencialmente aprender o valor da cooperação…

*Patricia Jacob é psicóloga clínica formada pela USP-SP.