O apelo ao medo

Lembram do homem do saco? Aquele homem assustador que andava pelas ruas pegando criancinhas mal criadas ou que ousavam se aventurar do quintal de casa para a calçada, as colocava no saco e levava embora? E quem não tinha medo da polícia quando criança porque a mãe dizia: “Olha a polícia! Vai te prender, hem!“

[com um tom assustador na voz] quando a gente fazia alguma estripulia na rua?

Figura muito presente na minha infância foi a loira do banheiro (dia desses me surpreendi ao saber por meu filho que ela ‘existe’ até hoje!). Pra quem não conhece, a loira do banheiro era uma mulher loira com algodão enfiado no nariz que ficava no banheiro das meninas esperando alguma que entrasse sozinha (parece que agora ela anda freqüentando o banheiro dos meninos também). Então, mesmo passando por muito aperto, esperávamos o recreio para irmos todas juntas ao banheiro, mortas de medo da tal loira. No fundo eu desconfiava que não passava de um boato espalhado pela professora, pra que a gente não incomodasse a aula toda querendo ir ao banheiro. Mas o medo era maior que a razão, e é claro que eu não arriscava!

Pois é, estes são exemplos clássicos de uma técnica popular muito eficaz para controlar criancinhas teimosas… São inúmeras as formas de se usar o medo como forma de controle do comportamento das crianças: “Não vai lá fora porque tem ladrão!“, “Se você não se comportar, Jesus vai ficar triste com você“, “Se não for um bom menino, não vai para o céu“, “Dorme, senão o bicho papão vem te pegar!“.

O apelo ao medo é um método muito utilizado como forma eficaz de se influenciar o comportamento humano. De tão eficiente, é usado por agências de propagandas, em campanhas contra drogas, velocidade no trânsito, doenças venéreas, etc. Quando há risco real, devemos sim informar e alertar as pessoas (crianças ou adultos) sobre os riscos que correm ao optar por tal comportamento. Mas informar e alertar é bem diferente de assustar somente com o intuito de controlar. Então me pergunto: será essa a melhor forma de ensinar regras, ética e ajudar nossas crianças a amadurecer e saber fazer escolhas saudáveis? Acredito que se pra isso tivermos que usar de apelo a uma ameaça irreal ou rara, não é uma alternativa saudável. Isso é manipular, não é educar! Então vamos pensar no seguinte: porque não tratar nossas crianças como seres capazes que podem, com a ajuda dos adultos inicialmente, refletir de forma lógica diante das várias situações que terá que enfrentar sozinha na vida mais adiante?

Devemos educar com verdade, mostrando a eles valores éticos, o valor e a alegria de fazer o bem, e ajudando-lhes a ajustar seus comportamentos diante de necessidades reais, e não de medos ilógicos. Tenho que tratar bem meus coleguinhas porque isso é ético, porque não faço aos outros o que não gosto que façam comigo e porque aprendi a importância do respeito ao próximo, e não pra que Jesus não fique triste! Não posso atravessar a rua sozinho com 4 anos porque é perigoso e posso me machucar muito, e não porque a polícia vai me pegar! (logo cresço mais e vou poder aprender).

Se educarmos para a responsabilidade, criaremos indivíduos maduros, autoconfiantes, cuidadosos na medida consigo e com os outros e capazes de analisar as diversas situações de suas vidas com senso crítico. Se apostarmos em educar com técnicas de apelo ao medo, podemos criar adultos fracos, inseguros e dependentes. Qual das duas opções você quer para seus filhos?

*Patricia Jacob é psicóloga formada pela USP-SP.

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